Thursday, November 23, 2006


Quando já não estiveres,
Vou encostar a cabeça ao ombro da vida
E fazer o que sempre me pediste:
Não ter medo!

Thursday, April 06, 2006


Às vezes caem folhas de Outono
No meu Verão
- sopro-as.
É a inutilidade mais perfeita que conheço:
Afastar o que sabemos que volta!

Wednesday, April 05, 2006

É!


É abandonar tudo em mim
A uma outra forma de ser eu
Que me conduz à vitória
Do adversário que em mim morreu;


É o querer neutralizar o mundo
No gesto agressivo de um grito
E proibir que se voe no céu
Batendo no tecto do infinito;


É exigir que a vida suma
Que se evapore quilómetros em cada dia
E dizer as palavras muitas vezes
Para lhes roubar o sentido e a magia;


É destruir a pouco e pouco as casas
As pontes, o chão e a dor em chama
E preferir ficar sem nada
Em vez de me iludir na Praça Humana.

Às vezes a vida parece trocada, baralhada em coisas de nada que afinal são tudo. No gesto das vozes podemos encontrar a resposta para pequenas dúvidas e no rodopiar do vento a solução para a falta de paz que assombra consciências…Os pensamentos têm cor e cheiro…E têm devaneios imperfeitos que traem os dias em que tudo parece estar no lugar certo. Esses, os dias de silêncio, são os piores. Podem trazer a leveza de uma pena branca a pousar na relva dos pensamentos, ou espelhar vazios de comodidade que ninguém tem coragem para romper…Está tudo no pensamento. No que não se vê. No silêncio…

Sunday, June 26, 2005

Escada

























Vais deixando pedaços do que és
Pelo corrimão da escada da minha vida.
Tantas vezes foste vitória esquecida,
Vencida e perdida em mim!


E antes que a vida mude
Os meus cinco sentidos,
E o sol do meu chão
Te acolha ao caíres,
Vou-te acompanhando na rota da lua
E navegar em tudo o que sorrires…


És uma fera tão fácil de gostar,
Mas de repente a árvore velha cai.
Três minutos depois de ti
O mundo vai:
Calado, enamorado, entrelaçado…


Em silêncio,
Com toques de perfeição,
Caminhas e partilhas comigo
O domínio do chão!

Monday, June 20, 2005

Conheço-te

Atiras-me medos ao cair da noite
Escura e perenemente tua,
Desenrolas desejos impossíveis no dia
Em que te reconheço
Aos ombros da lua…


E sempre que caminhas
Cai-te força por entre farpas escondidas,
São etapas de quem dorme ao relento,
De quem escolhe ser livre e morar
Na cortina fechada de um sentimento!


Mas quando eu chego e te conheço
O frio da voz,
Sangro-te as mãos na calçada triste.
Respira baixinho para não perderes
O cheiro do abraço que me pediste.

TU



Sento-me no livro que li e fico a pensar em como ele fala tanto de ti. Afinal és igual a toda a gente: banal e nada diferente.
Fizeste-me gastar madrugadas de cristal a pensar no que eras quando ser feliz me fugia pela vida fora. Andei às voltas no litoral dos meus pensamentos, em confrontos e elegantes alentos à procura da diferença. Gostava de perceber como é que a tua magnificência ancorou no meu porto de certezas oficialmente encerrado para o amor. Que palavra tua me deu a certeza de que não eras uma simples realidade vazia? Por que razão bati eu à porta do teu sorriso? Talvez por ser o lugar mais calmo que conheço…
Foste o mágico que me ensinou o truque que nunca se esquece. Foste a devassidão do momento certo. O código que gostei de decifrar. A estrela que gostei de contar. Foste o muro mais alto que construí entre mim e o mundo. Foste o verbo amar que tantas vezes me enganei a declinar.
Ladrilhei o meu quarto com saudades das letras da tua voz. Gosto de brincar com as palavras. De as mudar de lugar, de as sobrepor, desorganizar, cortar, inventar. E tu deste-me tantas letras para as minhas palavras…
O lápis adormece sobre o papel branco e molhado de silêncio, enquanto a rapidez com que te procuro emite sons circundantes que anulam a cor de qualquer pensamento.
Foram tantas as hipóteses formuladas diante do hino que é a tua presença: rascunhos feitos à beira-dor, sentimentos inquietos pela cumplicidade do acto de ser feliz.
E no fim, a insânia e a ousadia com que escrevi cada palavra e assinei a lógica, fazem de mim a mais perfeita homicida, poeticamente realizada.

Wednesday, June 15, 2005

Escreve



Quando não há possibilidade de dizer ao mundo o que pensamos dele, pega em papel e caneta e escreve-lhe uma carta. Talvez ele nunca a leia, mas sentir-te-às melhor por tê-la escrito. O importante é jamais deixar que ele te engula.

Monday, June 06, 2005

A caminho da (des)globalização

Passo a passo vamos caminhando no sentido de aproximar povos e culturas, raças e religiões, normas e costumes, línguas e civilizações. No entanto, à medida que seguimos por esse caminho, depressa nos apercebemos que a globalização não se faz efectivamente no verdadeiro sentido da palavra. Porque não é global. É antes semi-global. O uso do termo globalização levanta tantos problemas e questões quantos os que ajuda a resolver.
McLuhan observou que as capacidades de transmissão electrónica dos fluxos de informação tinham impactos não somente técnicos e próprios dos meios de comunicação, mas consequências culturais profundas, extensíveis a todas as esferas de organização social. A informação transmitida suprimia as separações geográficas entre os centros de decisão, produção e distribuição à escala mundial. A fragmentação social parecia diminuir. Foi também McLuhan que inventou a expressão que tantas vezes ouvimos actualmente - “aldeia global”. A ideia era fazer entender esta expressão como algo que definiria o futuro do planeta: um lugar onde seria possível que todos os seres humanos comunicassem entre si sem entraves espaciais nem temporais.
De facto, o crescimento extraordinário dos meios de comunicação e a sua grande disponibilidade trouxeram oportunidades excepcionais para o enriquecimento da vida dos indivíduos. Os meios de comunicação social têm uma enorme potencialidade positiva para promover valores humanos e familiares sólidos e, desta maneira, contribuir para a renovação da sociedade. Contudo, na prática, as coisas não são assim tão cor-de-rosa.
Vivemos num tempo em que nada acontece de verdadeiramente importante. Numa época em que o acesso à informação atingiu um grau desmesurado, com canais de televisão de todo o mundo a debitar notícias nas nossas casas, o cidadão não encontra nada de verdadeiramente empolgante para ouvir e até para criticar. As notícias são quase sempre as mesmas, sobre os mesmos países e sobre as mesmas pessoas, e correm o planeta vertiginosamente, tornando-nos próximos uns dos outros porém, excepto as catástrofes naturais ou acidentais, nada nos trazem de importante e inovador.
Resta-nos saber até que ponto, com tanta democracia tecnológica e informação ao alcance de comandos de televisão ou de teclados de computador, a sociedade do futuro se tornará amplamente participada, com cidadãos conscientes das suas responsabilidades e, por isso mesmo, discutindo, ousando e procurando o conhecimento.
O que se pretendia que fosse o limar de arestas de diferenças a todos os níveis, tornou-se num aglomerado de confrontos que emergem da circulação de informação. A globalização trouxe principalmente os progressos (desejáveis) nos meios de comunicação, a melhor circulação de pessoas, de mercadorias, de capitais e opções para todos. Todos se beneficiam com a globalização, no entanto, o benefício não é igual para todos. Devemos questionar-nos profundamente sobre as relações entre o global e o local.
Para comprovar tudo isto, analisei dois jornais on-line (www.dn.pt e www.publico.pt) que costumo consultar com alguma regularidade: toda esta teoria estava lá transposta. É óbvio que a maioria das notícias era sobre Portugal, ainda que sempre sobre as mesmas grandes cidades como Lisboa e Porto. Quanto às notícias internacionais elas centravam-se apenas e só sobre as relações entre os Estados Unidos da América e a China; Bruxelas e a Constituição Europeia; as vantagens do alargamento da União Europeia; as negociações e acordos em Washington; e, ainda, referência aos principais acontecimentos de países como a França, Polónia e Holanda. Tirando isto, nada mais havia: nem referência a países africanos, do terceiro mundo, ou a personalidades de outros países que não fossem dos EUA ou da Europa. As notícias da América e da Europa dominam o mundo e fazem-nos acreditar que isto é globalização. Há tantos conflitos a decorrerem actualmente e acerca dos quais nada é noticiado, só porque as suas convicções e interesses não chocam com os EUA. Mas quando se trata de uma guerra que vise directa ou indirectamente grandes potências como os EUA ou a Europa, todos os meios de comunicação social mobilizam repórteres para o local e transmitem, em directo, cada passo do conflito. Constata-se, portanto, que caminhamos rumo a uma bi-globalização centrada em dois pólos de incontestável e quase exclusiva importância mundial: EUA e Europa. De países pertencentes a outros continentes, só se ouve falar caso tenha ocorrido alguma catástrofe natural a grande escala. Infelizmente só a morte em massa parece mobilizar a globalização. E onde está a troca de valores culturais e o conhecimento acerca de outros costumes e normas sociais das diferentes sociedades das regiões do mundo que aparece na definição de globalização? Talvez se encontrem algures, perdidos no meio das negociações de Washington e dos tratados da União Europeia…